Meu cabelo é um ato político

Meu cabelo é um ato político

Quando criança, eu sonhava em ter um cabelo liso e grande, ficava horas imaginando como seria. Inúmeras vezes coloquei calças cumpridas neles e brinquei de imaginar que elas eram meu longo cabelo liso.

Minha mãe tentou insistentemente realizar esse sonho. Na verdade ela sonhava com um cabelos mais “fáceis” de pentear, porque sempre ouviu que alisar o cabelo é mais simples e fácil de cuidar. Eu não sabia, mas eu nunca teria cabelos longos e lisos igual as mulheres brancas da TV. A negação da minha mãe e minha, vinha da falta de representatividade existentes nos espaços de poder. A busca incessante do cabelo “perfeito”  (o liso e longo) trouxe para minha infância e adolescência muitos problemas de aceitação da minha identidade africana

Um dia minha mãe teve um problema na mão e precisou ficar internada. Eu devia ter uns 8  anos, ficamos com o meu pai, ele ficou responsável por cuidar do meu cabelo para ir para escola, mas ele não conseguiu prendê-lo. Eu me achei linda, apesar de meu pai ter penteado os meus cachos a seco e eu ficar com um pouco de dor de cabeça, ele me deixou ir de cabelo solto para a escola. Eu nunca pude ir de cabelo solto para lá, era a realização de um sonho que logo se tonou um pesadelo. 

Ao chegar todos riram de mim, com o vento no meio do caminho  meu cabelo havia ficado ainda mais volumoso e eu fui motivo de piadas na escola. Lembro que a partir daí, quis usar produtos que diminuíam o seu volume. Era a maioria das vezes, ridicularizada, quando tentava de alguma forma ter o corte de cabelo parecido com o das  minhas amigas da escola, sem entender que a textura do meu cabelo era diferente.

Eu não nasci sabendo que era negra, que meu cabelo era crespo e que nem sempre tinha todos os direitos que qualquer outra pessoa tem. Todo esse processo me fez acreditar que realmente eu não era bonita, e até hoje sofro com a minha baixa autoestima.  

Precisamos de mais mulheres negras que representem identidade para as crianças, para que desde cedo saibam valorizar sua ancestralidade.

Ouço ainda adulta, muitas piadas em relação ao meu cabelo crespo do tipo: “Vai sair com o cabelo assim?” ou, “Nossa! Quem fez isso no seu cabelo?” e ainda “Você precisa pentear o cabelo, você trabalha para uma parlamentar, tem que cuidar do cabelo.” Os modelos raciais se tornaram um caminho de negação à civilização da raça negra, criando  assim uma dificuldade maior para o povo preto: a de ter de enfrentá-la e superá-la.

Com a chegada do Feminismo Negro nas Universidades, que os debates sobre o que as  práticas com o cabelo crespo representam entre mulheres surgiram, com a necessidade de autodeterminação das mulheres negras sobre sua própria estética. De acordo com a professora universitária e escritora Ingrid Banks, na obra “Hair Matters”.

Dali em diante, vários outros movimentos surgiram, e com eles o conceito Consciência Negra, suas reflexões eram sobre os condicionamentos mais profundos do racismo e é assim então que surge o slogan  “negro é lindo” (black is beautiful). A radicalização do cabelo crespo “natural” foi central e o uso do cabelo crespo no estilo afro passa a ser privilegiado, explica a socióloga Anita Pequeno,  autora do artigo “História Sociopolítica do Cabelo Crespo”, mas quando vivemos em uma  sociedade que o racismo é velado, a gente (nós negros) acostumamo-nos com todo tipo de preconceito.

Em 2017 dei aula para o 9º ano B, em uma escola da periferia da Zona Sul de São Paulo. Essa era classificada como a pior sala da escola. Ao entrar na sala com o meu cabelo enrolado,  muitas meninas estranharam o fato de eu não alisar o cabelo como elas. Entendi nas  entrelinhas, que elas queriam dizer como eu tinha coragem de usar o cabelo assim, percebi de imediato o qual seria o assunto a ser abordado ali.

Então durante todo o ano fiz várias conversas sobre a importância do cabelo natural para nossa identidade, levei especialistas para conversas sobre nossa identidade, fizemos trabalhos voltados a cultura africana e para  minha felicidade no final daquele ano, as meninas que alisavam seus cabelos, passaram a usá los enrolados, até aquele momento, nunca havia pensado no meu cabelo no sentido de  afirmação.

Precisamos de mais mulheres negras que representem identidade para as crianças, para que desde cedo saibam valorizar sua ancestralidade. Demorou muito tempo até que eu entendesse a minha condição de mulher preta na sociedade e muito mais tempo para me entender como  uma mulher preta , e a reconhecer que a textura do meu cabelo é um ato político sim, mas  também é poder, porque nele eu sou a mulher preta periférica, professora, vizinha e filha.  Hoje eu me reconheço em cada cacho e volume quando olho no espelho, porque ao amar o  meu cabelo do jeitinho que é, eu incentivo outras a se verem representadas e a perceberem  que a escravidão não significou somente a perda da liberdade, mas da dignidade e do amor próprio. Vamos Juntas!

Não faça piadas sobre o cabelo afro

Nosso humor é reflexo do contexto cultural no qual vivemos. Assim, estereótipos racistas que  estão presentes na sociedade como um todo, muitas vezes aparecem em uma ou outra piada. (Adilsom Moreira)  

Não peça para tocar no nosso cabelo

Não há nada mais desagradável. A gente não é um objeto e ninguém pede para tocar um cabelo liso. Ser negro e alisar o cabelo não quer dizer que a pessoa seja racista: Muitas vezes, pessoas negras mudam suas características físicas por se sentirem pressionadas a isso dentro da estrutura social racista em que vive.

Não nos cobre por não saber nossa história

Estamos cansados de falar sobre isso. Use a Internet, estude e leia e se cerque de pessoas  diversas, quanto mais diverso nosso ciclo de amizade, mais a gente aprende.

Não diga, "eu tenho ou conheço uma pessoa negra, não sou racista"

Como sabemos, o racismo é estrutural. Uma pessoa não está isenta de ser racista só porque conhece alguém ou tem na família. Toda pessoa branca, mesmo que não queira, é beneficiada  pela estrutura racista.  

Não existe racismo reverso

Membro de grupos raciais minoritários podem até ser preconceituosos ou praticar discriminação, mas não podem impor desvantagens sociais a membros de outros grupos majoritários. O termo “reverso” já indica que há uma inversão, como se houvesse um jeito certo ou normal de expressão do racismo (Silvio de Almeida)

Bibliografia

Projeto Ecoa -Ecologia e Ação- https://www.uol.com.br/ecoa/
Alma preta Jornalismo preto Livre- Sexta, 11 Março 2022 https://almapreta.com/sessao
Livro: Um defeito  de cor Ana Maria Gonçalves

Vania Rodrigues

Vânia Rodrigues

Vania Rodrigues, 40 anos, negra, periférica. Filha de pais semi analfabetos, vindos do nordeste do Brasil. Formada em Letras Português Inglês e Pedagogia, pela universidade Metodista de São Paulo, com especialização no ensino de Língua Portuguesa pela Universidade estadual de Campinas UNICAMP, cursando o último ano de Ciências Políticas pela universidade Cruzeiro do Sul. Atualmente, assessora de Articulação Política da deputada Tabata Amaral e coordenadora do Projeto de Voluntários do mandato. Voluntária na Educafro – Cursinho pré vestibular para Afrodescendentes e Carentes e Instituto Vamos Juntas – movimento suprapartidário que visa a Inclusão de mais mulheres na política.
Colunista do projeto Odara Conecta – projeto de empoderamento da mulher negra.

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