Relato de uma educadora

Relato de uma educadora

…a escola passa a ser o local onde se sonham e se pensam melhorias para a comunidade que envolve a escola e para o bairro onde ela está situada.

Mello 2013

Gostaria de começar a carta, partilhando alguns incômodos do Encontro de Professores de hoje, ao tentar explicar a dinâmica da falta de brinquedos e qualidade dos mesmos, fui interrompida, por duas vezes, antes mesmo de ter concluído a minha fala.

Quero dar aqui, concretude ao meu olhar. Que em muitos momentos parece estar turvo ou mal intencionado, mas estou aqui para sinalizar a fonte na qual eu bebo e me respaldo. Como também para sinalizar que “o seu olhar melhora o meu” conforme Eduardo Galeano poetiza quando aquece os nossos corações na narrativa de Diego que não conhecia o Mar.

Então, os apontamentos não são críticas pessoais, mas sinalizações que as crianças merecem o melhor e que o meu papel quanto educadora social e articuladora dos direitos das crianças e dar voz as suas necessidades, sejam elas físicas, emocionais, do brincar, do alimentar e do estar bem. Para alguns parceiros e parceiras, já disse que posso ficar sem ir ao banheiro, mas pra quem já tem tantas coisas negligenciadas, infelizmente o meu papel é falar. Falar e falar, em nome daqueles que um dia falaram por si só.

Ao tentar sinalizar que não temos brinquedos em um espaço de Educação Infantil, estou tentando verbalizar que são da mesma materialidade, cores e até mesmo espessuras, porém agora em maio recebemos alguns materiais de outras texturas, volumes e espessuras. Neste ponto partilhei com a gestão e com minhas colegas um texto da Adriana Klisys sobre as restrições dos brinquedos artesanais e as oportunidades de quebrar, descobrir do que é feito e do ato da “invencionice”. 

Neste momento, quero chamar atenção para a qualidade do que temos. Me questiono por exemplo da caixa de miniaturas do McDonald´s, qual a intencionalidade de ofertar os brindes desta grande marca de fast-food que já responde processo sobre a venda casada de brinquedos e alimentos, conforme o instituto Alana, sinaliza através do seu advocacy? Qual a mensagem que passamos, sem intencionalidade de falar da marca, mas falando? Aí me pergunto, mais ainda…

Me preocupa em pensar que preciso orientar as crianças a cuidarem dos brinquedos e não quebrarem, mas eu já entrego pra eles, em sua maioria, alguns também sem cuidados, quebrados ou danificados.

Como estes brinquedos pararam na Educação Infantil, que tem como referências documentos de cunho internacional e nacional para o desenvolvimento do nosso fazer pedagógico com as crianças e bebês? Tenho várias hipóteses, mas a que vem em minha mente é que estes brinquedos saíram de algum colégio particular que resolveu fazer o bem para as crianças “abastardas” da Cidade.

Poderia ser mais profunda, só nesta caixa, mas quero melhorar o meu olhar para as demais caixas do espaço. Por exemplo as caixas das Barbeis, será que uma caixa de padrão de entrega de supermercado não seja esteticamente padrão demais para crianças brasileiras, que possuem culturas e formatos de corpos diferentes e com anseios corporais também diferentes? Qual é a estética que estamos comunicando somente como belo? Quais os cabelos e tons de pele destas bonecas?

Mas também temos a caixa com bonecas, que são os bebês em sua variedade de cabelos e tons de pele, porém os cabelos destas bonecas não possuem qualidade para serem escovados, banhados ou trançados pelas nossas crianças por conta de uma textura que compromete a qualidade do brinquedo e do brincar. O que quero sinalizar que não faz sentido ter quantidade e não ter qualidade, pois acabamos trocando seis por meia dúzia como dizem as pessoas mais experientes.

Temos a caixa dos heróis Marvel, que fazem parte do repertório infantil e que após muito uso se quebram, e cabe aos educadores criarem um contexto com uma história para que as crianças continuem a utilizar os brinquedos. Por exemplo o Capitão América sem braço e incluído nas brincadeiras como alguém que sofreu um acidente “perdeu” o braço, mas pode conviver com os outros e dar continuidade na sua vida. A minha provocação aqui é:  hoje temos propostas de brinquedos que trabalham a inclusão para além da ausência de membros.

As panelas de alumínio, em sua maioria amassadas, sem cabo ou tampa. Elas revelam um brincar continuo… mas será que não podem ser substituídas? Me preocupa em pensar que preciso orientar as crianças a cuidarem dos brinquedos e não quebrarem, mas eu já entrego pra eles, em sua maioria, alguns também sem cuidados, quebrados ou danificados.  Aí retomo o link da Adriana Klisys, sobre a invencionice, mas quando eu já usei toda a minha cota de invencionice com este brinquedo e o uso já não faz mais sentido? O que fazer?

Vou sinalizar alguns outros pontos:

* os fantoches que as crianças não se interessam, pois a sua estética não é agradável, ou seja, precisam ser substituídos;

* os jogos, em sua maioria ,já estão com falta de peças, podem ser repensados ou substituídos como fazemos em casa; 

* os instrumentos musicais – alguns já estão amassados, quebrados e penso que a experiência com a música e com os instrumentos precisam ser de objetos de qualidade. 

Os brinquedos, em sua maioria, ditos de qualidade devem ser usados em quais espaços da Educação Infantil? Somente dentro das salas? Ou podemos utilizar em outros lugares para além da sala de aula ou sala de referência? Precisamos fazer essa reflexão.

Mas para além de sinalizar as dificuldades, quero também contribuir com as sugestões de algumas referências:

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=12451-publicacao-brinquedo-e-brincadeiras-completa-pdf&category_slug=janeiro-2013-pdf&Itemid=30192

Trata-se de um documento técnico com a finalidade de orientar professoras, educadoras e gestores na seleção, organização e uso de brinquedos, materiais e brincadeiras para creches, apontando formas de organizar espaço, tipos de atividades, conteúdos, diversidade de materiais que no conjunto constroem valores para uma educação infantil de qualidade.

O presente documento foi elaborado pelo Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Básica, visando atender ao estabelecido na Emenda Constitucional nº 59 que determinou o atendimento ao educando em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde e contou com a parceria do UNICEF.” 

Territórios do Brincar

https://territoriodobrincar.com.br/wp-content/uploads/2014/02/Territ%C3%B3rio_do_Brincar_-_Di%C3%A1logo_com_Escolas-Livro.pdf

Brinquedos do chão

A natureza, o imaginário e o brincar

Gandhy Piorski

https://avisala.org.br/index.php/assunto/reflexoes-do-professor/o-brincar-e-o-professor-de-educacao-infantil/

Patricia Pio

Patricia Pio

Pedagoga com Habilitação em Gestão Escolar, Especialização em Gestão de Políticas Públicas, Inclusão e Diversidade Social, Mestranda em Educação – Formação de Professores pela UFSCAR-Sorocaba;

2 Comentários

  1. Loretta
    1 mês atrás

    Excelente reflexão Patrícia! Nossas crianças precisam de espaços que supram as suas necessidades. Como educadores (as) devemos prezar pela excelência dos espaços, dos materiais e do nosso fazer pedagógico. Concordo que em alguns momentos, devido a escassez de recursos, precisamos improvisar com o que temos, mas esse improviso não pode ser eterno. Devemos renovar o acervo de brinquedos, sempre que for necessário e possível, já que isso não é um luxo, mas uma ferramenta importante para a inventividade, descobertas, desenvolvimento sensorial e ampliação do repertório cultural e social dos bebês e crianças.

  2. Priscila
    1 mês atrás

    Texto inquietante que, ao meu ver, fala muito do perfil de professores da educação infantil. Por experiência, de 5 CEIs que passei, apenas 1 tem proposta de trabalho reflexivo, em que cada materialidades do espaço foi pensado! (o CEI que estou atualmente, após uma busca incessante). Algumas coisas cansam. O óbvio não faz sentido na cabeça dessa galera que não estuda!

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