Contos de sobrevivência de uma gestora negra

Contos de sobrevivência de uma gestora negra

Kinah*, formou-se como educadora e atuava quanto gestora em uma escola de Educação Infantil, sempre buscando ser cuidadosa, passava por várias situações de preconceitos, porém tentava mediar de uma forma tranquila. Mas foi durante uma dessas conversas do ambiente de trabalho, aparentemente informal que o racismo eclodiu.

Um colega de trabalho, que tem pensamentos radicais e pouco aceita a opinião do outro, perguntou para Kinah sobre o Dia Internacional da Mulher, o que ela achava deste dia e se deveríamos comemorar com as crianças e com a equipe de profissionais. Ela respondeu que não via sentido, que não era um dia de comemoração e que o enredo histórico privilegiava apenas um grupo de mulheres e ela não se sentia representada neste movimento.

Neste momento o olhar de Andreas* ficou congelado, mas ao mesmo tempo o rosto se transformou e questionou o absurdo verbalizado por Kinah. Tentando retomar o assunto, ela educadamente explicou que as mulheres foram protestar, mas as mulheres negras já trabalhavam e que a busca de espaços de trabalho era para as mulheres brancas. Que somos identificadas apenas para algumas situações de trabalho.

Andreas, fez as suas argumentações com textos e referências do movimento feminista branco, Kinah por sua vez explicou que não há comemoração com tantas mulheres ainda sendo mortas, agredidas e violentadas em sua maioria negras. Que o ato deveria ser mais político do que celebrativo e que caberia um debate ampliado sobre o tema, já que além das questões raciais temos as questões machistas em nosso pais.

Naquele momento Kinah viu-se encurralada e sem ação, pois entendia que era uma questão de conceitos históricos e não percebeu as questões raciais veladas.

Kinah, achou que a conversa tinha sido frutífera, já que era uma troca de pontos de vistas e nada ficou decidido. O colega por sua vez, homem e branco, começou a espalhar pelo espaço de trabalho as suas concepções, relatou que Kinah era contra o feminismo e não concordava em celebrar o dia da mulher.

Usou a sua influência para levar o assunto para outros gestores e colegas de trabalhos de outros espaços e segmentos, ou seja, Andreas se sentiu ameaçado com o conhecimento da colega de trabalho, gestora, mulher e negra. Sua única arma foi a fofoca, ou seja, praticou Assédio Moral por conta de uma leitura de mundo.

Não considerou a história de vida da Gestora e sutilmente, foi desqualificando a mesma para todos os trabalhadores deste espaço educativo. Naquele momento Kinah viu-se encurralada e sem ação, pois entendia que era uma questão de conceitos históricos e não percebeu as questões raciais veladas. Todos passaram a questioná-la por ser radical, mas o seu olhar não estava puramente para o feminismo, mas para um feminismo que considerava apenas um grupo de mulheres: as mulheres não negras.

Kinah, guardou isso por muito tempo em seu coração, entristeceu-se e hoje ela consegue relatar o Assédio vivido. Percebeu que sofreu racismo ao ler Angela Davis, Laverne Cox, Bell Hooks e Simone Beauvoir. Percebeu também que o colega de trabalho teve medo, pois estava em risco a sua estrutura colonialista, machista e eurocêntrica, na qual nunca lhe foi permitido atuar fora da caixinha. Usou o falso conceito de ética para mostrar a sua sutileza racista. Escondeu-se através do discurso da fé, já que ele escreve e atua em nome dela, para justificar a sua ideologia de supremacia.

Kinah, continua gerindo equipes, em outros tempos e espaços. Mas pensa o quanto a relação de gestão e raça é cruel. Que ainda no imaginário das pessoas, as mulheres negras não devem ter espaços de gestão e muito menos o atrevimento de falar de um lugar que eles acham que não nos pertencem.

*Kinah e Andreas, são personagens fictícios, apenas nomes escolhidos pela autora para compor este conto que não é fictício.

KINAH: Obstinada, empreendedora

Patricia Pio

Patricia Pio

Pedagoga especialista em gestão de projetos sociais, inclusão e diversidade social

Related Article

6 Comentários

  1. João
    12 meses atrás

    Comentário provocativo e pertinente! O olhar com a vivência da mulher negra sobre a data comemorativa do dia Internacional da Mulher mostra o quanto ainda precisamos (re) aprender constantemente. Parabéns pelo artigo. Agradecido estou. Prof. João

  2. Lucélia
    12 meses atrás

    Maravilhoso!
    Um artigo com linguagem fácil, que envolve e nos faz refletir sobre esse tema que passa despercebido, a comemoração do dia das mulheres sobre o viés do racismo.

  3. Isidia Maria dos Santos
    12 meses atrás

    Boa noite!!!
    Patricia Pio
    Achei muito interessante esse conto, mostra com clareza que a mulher e a mulher negra sempre são massacradas nesse sistema, que sempre existiu e existirá um ser se achando superior que tem como objetivo se impor diante do ser que ele considera frágil, mas a mulher negra e qualquer mulher tem o direito e pode ocupar o cargo que ela quer, nós mulheres somos o queremos ser o que a gente deseja ser e nada consegue mudar uma mulher determinada.#racismonão.

  4. Silvia Augusta de Araújo
    12 meses atrás

    Em uma noite de insônia li algo realmente relevante quanto ao papel da mulher negra na sociedade. E a palavra para esse papel é submissão.
    Parabéns
    Silvia Augusta

  5. mariarcostacida@gmail.com
    12 meses atrás

    Nossa meu ponto de vista o texto e contexto nos leva a reflexão, sobre o racismo velado, não verbalizado. Penso que nos mulheres pretas precisamos nos encontrar conosco e com os outras pretas, independente de títulos , para discutirmos o básico ,(prioridades coletiva).

  6. Tereza Perussi ribeiro
    12 meses atrás

    Acho que ela agiu de forma correta, a resposta que deu foi mediante um opinião sua e muito bem formantada de acordo sua cultura e experiência, quem não gostou raciocinou com racismo,medo e ignorância!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *