Como superei não ser desejada pelo meu parceiro

Como superei não ser desejada pelo meu parceiro

A vida é uma caixinha de surpresas e mesmo sabendo disso, ainda nos assustamos quando as surpresas acontecem, né?

Me vi aos 27 anos casada, com um cachorro, uma casa linda e o emprego que mais amava. Pronto! Muito antes do que havia planejado eu tinha alcançado tudo que esperava para minha vida e lembro claramente de um dia avaliar tudo isso na sacada da minha casa e pensar:

É isso, você fez tudo, e agora?

Não me entenda mal. Eu estava feliz, mas mesmo assim algo não encaixava. Meses depois as coisas fizeram sentido. Com o tempo me vi casada com um homem que parecia um filho e acho que aguentaria isso por mais tempo se não fosse o fato de não ser vista como mulher naquela relação.

Antes de casar, moramos alguns meses na casa dos meus pais e isso era a justificativa dele para a pouca procura. Depois de casar, estávamos só nós dois em nossa casa e as coisas só pioraram. Perdi as contas da quantidade de vezes que tentei resgatar a relação sexual e nada funcionava, eu estava cansada e parei de implorar (literalmente) por aquilo no terceiro mês de casada. Desde então não fui tocada.

Como psicóloga, tentei usar ao máximo meus conhecimentos para ajudar a relação e entender aquela indiferença. Naquela época eu não compreendia que isso não tinha nada a ver comigo. Acho que parte disso se deu por aquele padrão social de que a mulher salva ou modifica o homem.

Como assumir pro mundo, tão pouco tempo depois que o meu conto de fadas não deu certo?

Com o tempo perdi meu brilho, não me cuidava mais e minha autoestima era baixíssima, mas eu só fui reparar isso meses depois. No meu aniversário (dia que eu mais amo), a indiferença dele foi clara. Ele sabia da importância da data para mim e simplesmente não se importou com aquilo. As atitudes dele acabaram comigo pouco a pouco e daí em diante foi ladeira abaixo porque tudo foi se somando e eu já estava sufocada por morar com alguém tão apático a ponto de não me ajudar e não me desejar.

Eu tinha 07 meses de casada, um relacionamento que não funcionava, não importa o quanto eu insistisse em melhorar as coisas (não dá para fazer por dois, né?). Mas como assumir pro mundo, tão pouco tempo depois que o meu conto de fadas não deu certo? Depois de toda aquela festa de princesa, como eu iria encarar todas aquelas pessoas? Como é que eu ia me encarar depois dessa derrota?

Sim, derrota! Eu ouvi de tantas mulheres que eu estava me separando por pouco, que não fiz o suficiente, que deveria me esforçar mais que a única coisa que me vinha a cabeça era que eu estava sendo fraca e derrotada.

No dia em que o Brasil perdeu a copa, nós conversamos e concordamos que não estava bom e que talvez fosse interessante nos separarmos por um tempo para ele poder se entender. Eu não tinha para onde ir, pois na casa dos meus pais já não tinha mais espaço pra mim. Então combinamos de continuar morando juntos enquanto isso.

Isso durou um mês. Nesse meio tempo tivemos apenas duas brigas, onde ele verbalizou que eu deveria sair da casa dele. Casa que reformamos juntos, que até então cuidei com tanto carinho como meu lar. Ouvir duas vezes aquilo me fez ficar perdida, pois não me sentia mais em casa e ao mesmo tempo não pertencia mais à casa dos meus pais. Isso me deixava perdida.

Até que um grande amigo me falou que lar é onde nosso coração estava e eu notei que o meu realmente não estava mais lá.

Então decidi voltar a morar com meus pais, na esperança de que as coisas melhorassem. Obviamente isso não aconteceu e os meses seguintes foram muito complicados, os amigos do nosso ciclo não se preocuparam em falar comigo, não tinha um trabalho tão estável, me sentia sem rumo e não tinha espaço para sofrer na casa dos meus pais porque não queria preocupá-los. A hora de acordar e de dormir eram as piores, pois eu encarava como minha vida tinha desmoronado.

Eu e meu ex tentamos retomar, mas ele tinha outra (que começou a se relacionar um mês depois da nossa separação) e eu era vista como a ex louca. De um jeito que nem percebi, passei a me comportar como uma. E eu sempre achando que precisava trazer ele para a luz ou salvá-lo de comportamentos ruins.

No fim das contas, me afundei e sofri coisas que não desejo para ninguém. Mas tive sorte. Uma amiga me apresentou para o grupo de amigas dela e minha vida social começou a acontecer. Dessa SQUAD tirei muita força e ganhei muito apoio. Minha família e amigos antigos também foram essenciais para que eu superasse o ocorrido.

Quando entendi que aquilo não daria certo resolvi me divorciar e o fiz em menos de uma semana. Não queria mais aquilo para mim. Depois ainda tive meus altos e baixos na relação de divisão de bens e demorei um tempo para cicatrizar as feridas na minha autoestima.

Foi difícil aceitar que gostava dele, pois ainda haviam feridas abertas.

Sete meses depois da separação eu conheci um cara. Foi difícil aceitar que gostava dele, pois ainda haviam feridas abertas. Mas, muito trabalhada na psicoterapia, decidi tentar e foi a melhor decisão da minha vida.

Um ano depois da minha separação me vi vivendo uma vida com muito mais sentido, sendo eu e reconhecendo meu valor e com um parceiro que faz o mesmo. Isso tem um valor inestimável. É engraçado quando penso que eu não imaginava minha vida sem aquele homem e agora eu não vejo sentido na vida que vivia com ele.

debora barros psicóloga

É importante ressaltar que eu não fui infeliz naquele casamento, mas ele não me fazia feliz e isso era o suficiente para justificar minha partida, independente do que os outros falassem.

Hoje percebo que tudo que aconteceu teve seu valor na minha vida, entendo que meu ex fez o que podia na época e que aquilo não me era suficiente. Tenho orgulho da mulher que me tornei e da força que tive para sair daquela relação. Sou grata aos que me ajudaram, as mulheres que relataram suas experiências e me deram forças e a todos que me ensinaram a receber ajuda. Quando olho para trás nessa história penso em um trecho do livro Pequena Abelha, do Chris Cleave:

Peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: Eu sobrevivi.

Chris Cleave

Com isso me despeço, convidando você a encontrar sua rede de apoio, reconhecer suas forças e agir em direção à vida que realmente faz sentido para você. Depois acolha suas cicatrizes e entenda a beleza de cada uma delas no seu ato de sobreviver.

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6 Comentários

  1. Tatiana Cristina Stefano Feltrin
    10 meses atrás

    Caramba! Que incrível! A gente sempre aprende um pouquinho com nossas ”manas” … a gente se culpa até por não ser desejada, ou a gente deixa que nos façam acreditar que somos culpadas.
    Que a gente se ame a ponto de entender que: cada um oferece o que pode, e que somos potentes e podemos muito, inclusive com nós mesmas!!! SOMOS MUITO MAIORES DO QUE TUDO QUE DIZEM QUE SOMOS.
    Que seu sorriso siga assim, iluminado!

    • Debora Barros
      10 meses atrás

      Gratidão Tatiana, é isso aí que todas nós possamos ter essa visão e possamos entender nosso potencial vitorioso! Esse blog ajuda muito nisso.

  2. Gabriela Oliveira
    10 meses atrás

    você me surpreende, cada dia que passa te admiro mais e mais… parabéns ❤️

  3. Vivian Barcelos de Carvalho
    10 meses atrás

    Admirável sua força para encarar tudo isso 💪🏻

  4. Debora Barros
    10 meses atrás

    Ahh gratidão, você fez parte da minha rede de apoio ♡

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