Como diz meu pai: Digno de dó

Como diz meu pai: Digno de dó

Como diz meu pai: digno de dó.

Estou eu aqui, tentando finalizar as avaliações do quarto bimestre dos meus alunos, mas não estou conseguindo. Tem um negócio dentro de mim que tá “foda” (desculpem o termo). No dia 20, já tinha feito um texto para o Prateleira de Mulher, mas acordei com a triste notícia de mais um corpo negro agredido e morto.

Destaco aqui MAIS UM, não é um homem negro morto, mas, MAIS UM CORPO NEGRO MORTO EM 2020. Só pra fazer o recorte do tempo, quantos foram somente neste ano? Entre crianças, jovens, adultos, homens e mulheres brasileiros.

Peço desculpas ao meu leitor, mas se faz necessário o recorte territorial sim, pois isso nos atravessa todos os dias. Em uma sociedade racista somos “guetizados” sim. Então tenho algumas inquietações para este momento. Não quero dar respostas e nem vou fazer, mas refletir com vocês sobre a nossa situação. Assim lá se vão alguns incômodos:

Até quando vamos continuar com a postura de um povo colonizado – a síndrome do colonizado e colonizador. Ficamos em silêncio e nos revoltamos e criticamos mulheres e homens que vão pra luta em prol de outras vidas negras. Olha, não sou a favor da violência, mas já perceberam como as notícias circulam sobre vandalismo X manifestação nos meios de comunicação? Aqui em um pais colonizado é vandalismo, na Europa e E.U.A chama-se protesto. Alguém poderia contribuir comigo sobre essa variação linguística? Isso se posso classificar desta forma?

Como uma pessoa HUMANA (sei que está errado, mas pra focar na falta de HUMANIDADE) consegue filmar uma ação de violência de tão perto como aquela mulher? Gente!!! Oi?! Outro dia vi um homem gritando com uma mulher na rua e pegou no seu braço, eu estava de carro e quase joguei o carro nele, subi na calçada que os dois se assustaram. A pessoa que estava comigo me chamou de louca. Claro, um homem dizendo que não deveria me meter. Mas o que quero refletir nesse caso não é ser homem ou mulher, mas uma pessoa, uma vida. Então vou tentar entender. Aqui a sentença de morte tá ficando bem explícita né! Sendo bem objetiva, o povo negro já nasce com a marca da morte? É isso mesmo?

Não existe Racismo no Brasil!!! Gente sinceramente, não queria ter que assumir um ponto de debate político, mas não tem como me silenciar. Tudo o que escrevo, o meu jeito de ver o mundo já diz como sou e no que acredito. Eu não sou do partido A ou B e nem vou pra Cuba, como já me disseram por defender as pessoas. Mas bora lá. Precisamos enterrar a síndrome de povo colonizado e ir para as ruas, como os povos ditos superiores fazem?! Derrubar estátuas, quebrar, colocar fogo como forma de protesto? Como sinalizado nas reportagens? Quem sabe assim os nossos governantes vão começar a entender, mas vamos lá. Um governo que não tem nenhum ministro negro ou indígena, não acredita na ciência e diz que o Covid19 é uma gripezinha, que aparentemente facilitou as informações sobre o procedimento médico da criança que foi violentada por homens, que diz que não ter fogo nas florestas e que em plena crise indica medicamentos para a população sem nenhum respaldo médico (que parece ser ilegal né!). Aí eu preciso recorrer a sabedoria ancestral de meu pai: “Digno de dó”.

Gente, uma representação política, não partidária, que mesmo com dados numéricos, informações reais, não consegue perceber a nossa situação racial, é digno de dó mesmo. Não pela matemática dos corpos negros que são violentados e mortos, não só por tudo isso. Mas pelas mães e pais destes corpos, pelas famílias e pela insegurança de pensar que posso ser a próxima.

O que mais me indigna, não são eles assumirem não nos verem, pois isso já sentíamos em nossas peles e carnes, com a indiferença e o silenciamento de falar sobre o tema. Mas o que mais me indigna são eles não serem cuidadosos com a Dororidade do povo negro, como diz @Vilma Piedade.

Quando um governo se preocupa em tirar as intervenções culturais dos espaços públicos que representam o país e colocam as suas próprias imagens, isso diz muito de como ele pensa e age. Quando um governo valida a violência contra as pessoas, ele diz muito o que ele vai proteger. Quando um governo trata com indiferença os quilombolas e os povos originários, ele diz muito pra que veio. E como um desabafo, nem sei se posso, mas peço licença pra fazer isso aqui. As coisas só estão piorando, pois estamos sendo atacados há muito tempo na calada da noite, porém, depois da destituição de um Ministério que dialogava com as nossas lutas, isso só vem piorando.

Novamente, não sou partido A, B ou C, só acredito que equidade não é isso o que estamos vendo e que ainda tenho direitos garantidos na Constituição que este governo diz não existir. Se não existe racismo, não existe necessidade de políticas públicas pra defender os corpos negros que são mortos, violentados e que sofrem por acharmos que seremos os próximos.

Um pouco mais vazia, acho que vou conseguir finalizar as minhas tarefas. GRATIDÃO!!!

Patricia Pio

Patricia Pio

Pedagoga com Habilitação em Gestão Escolar
Especialização em Gestão de Políticas Públicas, Inclusão e Diversidade Social
Mestranda em Educação – Formação de Professores pela UFSCAR-Sorocaba

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5 Comentários

  1. Dirlene Regina da Silva
    6 meses atrás

    Que texto, Patrícia!! Parabéns pelas palavras de indignação e desabafo que representam a voz de um povo. Concordo plenamente com teu sábio pai: Infelizmente, a situação é Digna de dar dó.

    • Patricia
      6 meses atrás

      Dirlene, obrigada!!! Existem momentos que só a sabedoria dos nossos ancestrais pra justificar a nossa realidade….Gratidão

  2. Alice
    6 meses atrás

    Patricia, muito verdadeiro e comovente o seu artigo. Comovente de dar dó e de comover o leitor para a ação, para lutar pela causa que é tão necessária que só não enxerga quem veio a esse mundo a passeio. Como ouvi a Luiza Helena Trajano dizer em uma aula que ela ministrou para a PUC-RS: “tem gente que só tá vivo porque esqueceu de morrer.”
    E que não sejam mais as vidas dos negros.

  3. Patricia
    6 meses atrás

    Alice, precisamos lutar e acredito que existem vários formatos pra isso. O conhecimento é um dos formatos…Espero que i viver seja digno e com esperança….

  4. Isidia
    6 meses atrás

    Patrícia, parabéns pelo seu artigo, essa é a verdade e realidade que vivemos hoje, a indiferença e falta de respeito, a luta sempre existirá e cabe a cada um de nós defender nossos direitos, o negro precisa provar que é capaz de qualquer coisa para a sociedade, pura ignorância, porque nós somos capazes de tudo.

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