A descoberta do Amor próprio

A descoberta do Amor próprio

Você já parou pra se perguntar, sinceramente, o quanto você se ama? O quanto você se respeita? É uma pergunta complicada principalmente para as mulheres. Somos bombardeadas a todo o tempo com fotos de mulheres lindas e impecáveis nas revistas e na TV. Aquela policial que combate o crime sem borrar a maquiagem e desalinhar seus cabelos. Que no fim do dia vai pra lanchonete, come um hambúrguer e toma uma cerveja, mas continua com a barriga chapada.

As digital influencers do instagram, que exaltam a importância de se aceitar como você é, depois delas terem passado por quinhentas intervenções cirúrgicas no corpo e no rosto. As modelos que dizem que você tem que viver a vida como ela é, mas vivem à base de dietas mirabolantes e cintas modeladoras. Cremes, cosméticos, cabelos, unhas, maquiagem. Tudo tem sempre que estar impecável, pra que você se sinta, no máximo, bonitinha.

Essa pessoa de uma cidadezinha do interior de São Paulo que aqui vos fala agora, nunca foi uma garota que se importava muito com aparência. Na verdade, na adolescência, era bem adepta de roupas masculinas. Nunca foi magra, mas não sentia que tinha que esconder o corpo, como algumas jovens de hoje sentem. Ela se sentia bem com o corpo que tinha, nem magra nem gorda. Praticava esportes, era ativa no vôlei, no basquete, no ciclismo. Como quase toda jovem dos anos 90, gostava de esportes. E gostava de si mesma, mesmo olhando no espelho e vendo que, na época, não era tão bonita quanto as amigas.

Sempre fora aquela pessoa legal, que ‘ajeitava’ as amigas bonitas para os amigos. Tinha mais amigos do que amigas na época. Se dava melhor com os meninos, por saber que a maior parte da competição entre as meninas que tinham 14 anos em 1997 era por beleza e popularidade. Nunca se importou com popularidade. Sabia que não tinha cacife para entrar nessa briga. Mas não se importava. Claro que o fato do cara bonito do colegial, até então seu colega, dizer que ela tinha que se enxergar e que nunca ficaria com ela, na frente de todo mundo, fez com que ela se fechasse ainda mais pra esse tipo de coisa. Se conformou de que era apenas legal.

Com 15 anos ela se conformou que jamais pertenceria aos padrões. Assistia aos vídeos que mais gostava na TV de tubo de 14 polegadas que tinha no quarto. Quando ganhou um vídeo cassete de presente de aniversário, passou a gravar os vídeos musicais que passava no Interligado (porque não tinha MTV em casa na época), e via que, nunca na sua vida, poderia usar uma calça baixa como a que Britney Spears usava em I’m Not a Girl, Not Yet a Woman. Essa foi a primeira vez que se lembra de ter detestado o corpo que tinha.

Em 1999, aos 16 anos, conheceu um cara que parecia ser legal. Ele era mais velho e aparentemente era maduro e responsável. Perto dos caras que conhecia no colegial, ele era muito, muito legal. Em 2000, faltando dois meses para que ela completasse 17 anos, eles começaram a namorar. Ele ainda parecia legal. Agora ainda mais legal, porque se importava. Demonstrava ciúmes. Coisa que ninguém nunca teve dela. Ela tinha a certeza de que ele a amava. Porque teria ciúmes se não amasse? E esse amor a impediu de usar roupas curtas. Sempre teve pernas grossas, e isso passou a incomodá-lo. Ela não podia mais usar shorts. Saias, apenas abaixo do joelho. Ela teve que parar de andar de bicicleta. Ele a buscava na escola todos os dias e isso fez com que ela se distanciasse dos amigos. Quando entrou na faculdade, ele a vigiava escondido, para que ela não conversasse com homem nenhum no campus.

O dia que ela fez isso e ele viu, fez um escândalo e a mandou escolher entre ele ou o curso. Ela teve paciência, contornou a situação e ainda pediu desculpas por ter um amigo homem na faculdade. Prometeu a ele que isso não se repetiria. O ano era 2001, e ela tinha 18 anos. Aos poucos foi tendo a certeza de que ninguém nunca a amaria como ele. Não por ela mesma, mas por influência dele. Ele a fazia pensar isso. Em 2003, prestes a completar 20 anos, eles se casaram. Ela ficou um pouco em dúvida, mas resolveu que era a melhor coisa a se fazer.

Não por ele a tratar bem, pelo contrário. Ele a fazia se sentir a pior das pessoas, a mais feia. Fazia questão de dizer o quanto ela era gorda (mesmo não sendo), porque sabia que esse era o ponto fraco dela. Sempre foi. Na viagem de lua de mel ele elogiava com admiração o corpo das garotas que andavam pela praia em Itapema, Santa Catarina. Fazia questão de mostrar que se não fosse ele ter pena dela, ser um cara muito benevolente, ela estaria sozinha e solteira. Afinal de contas quem é que seria louco de se interessar por uma jovem de 20 anos que tinha um corpo normal? Um rosto normal? Ninguém faria isso. Quatro anos se passaram desde o casamento. Agora a situação era de brigas, discussões constantes. O auge chegou com as agressões físicas e a traição. O que antes era limitado ao verbal, passou a ser físico. Tapas, puxões de cabelo, empurrões, bebedeiras, uso de drogas. Esse foi o limite.

Aos 23 anos ela percebeu que não tinha mais como continuar um casamento que deveria ter acabado no início das agressões verbais. Mas o que ela faria? Teria de se conformar em passar o resto da vida sozinha, pois, afinal de contas, quem iria querer uma gorda, feia e ainda por cima divorciada? Teria que tentar. Dois meses depois de assinar a separação ela soube que ele estava morando junto com a namorada grávida. Ela agora morava em outra cidade por causa do emprego. Campinas era uma cidade grande e faria com que ela superasse logo tudo isso. Mas não foi o que aconteceu. Até se interessou por alguém, mas soube que ele apenas lhe dava bola porque os amigos fizeram uma aposta. Mais uma vez ela percebeu que não era digna do amor de ninguém. Claro, ninguém se interessaria pela garota gorda, feia e divorciada.

Sozinha, sem emprego, sem dinheiro e sem dignidade, pediu perdão para a mãe, que a aconselhara tempos antes a não fazer a besteira que havia feito.

Então ela jogou pra cima tudo o que tinha. O emprego concursado, a dignidade, se envolveu com um antigo conhecido que estava recém separado da namorada. Se colocou em uma situação de necessidade financeira por escolha própria, achando que, agora sim daria certo. Tinha dentro de si uma necessidade de mostrar que poderia manter um relacionamento a qualquer custo, final de contas, o ex marido que tanto a humilhou já tinha uma família formada. E por mais que esse não fosse nem de longe o desejo dela – ter uma família – ela tinha que provar que também poderia ter alguém. E não se importou em preencher esse vazio com qualquer porcaria. Depois de 3 meses morando com esse antigo conhecido, o relacionamento terminou. Aliás, a mãe dele terminou o relacionamento com ela, porque aparentemente ele não teve coragem o suficiente de o fazer. Semanas depois, ele voltou o relacionamento com a antiga namorada. Que não era gorda, nem feia, nem divorciada.

Sozinha, sem emprego, sem dinheiro e sem dignidade, pediu perdão para a mãe, que a aconselhara tempos antes a não fazer a besteira que havia feito. Voltou a morar na casa que a mãe. Havia cedido a ela quando se casou. Sozinha, desmotivada e amargurada. Seu ex marido tinha razão. Se não fosse ele suportá-la, ela ficaria sozinha para sempre. Com um emprego que não pagava muito e não deixava muito tempo para que pensasse em sua própria vida, dirigindo caminhão, ela seguiu por três meses. Um corte de funcionários fez com que ela perdesse, além de tudo, o emprego. Era um dos funcionários mais novos, e junto com todos os outros funcionários recentes ela foi mandada embora para economia da empresa. A mãe poderia lhe dar emprego, mas ela não sabia se queria pedir mais esse favor a ela. Acabou trabalhando com a mãe de quebra galho.

E assim está até hoje. Não mais na função de quebra galho, mas hoje ela trabalha como administradora. É, não foi o curso em qual se formou, mas foi onde se encontrou. Logo que voltou a trabalhar com a mãe, em 2008, ainda na função de quebra galho, conheceu um rapaz. Não tinha nenhum tipo de fé em mais ninguém que pudesse se aproximar dela. Mas ele não deixava de ser um homem interessante, a seu ver. Não tinha mais nada a perder. Já havia aprendido que o mundo não a amaria da forma como ela sempre vira nos filmes. Havia aprendido que o amor era apenas uma ilusão. Mas isso não a impediria de se divertir. E assim o fez. Começaram a sair, e quatro dias depois ele a pediu em namoro. Que ridículo, ela pensou. Quem é que namoraria a garota gorda, feia e divorciada? Depois de ter terminado a escola, seus esportes eram escassos, e isso fez com que ela aumentasse ainda mais o seu peso.

Derby Silveira

Obviamente ela não era nada atraente e interessante. Se já não o era antes, com um corpo considerado normal, imagina agora? Pensou que não tinha mais nada a perder, nem a própria dignidade. Nem o amor próprio que, sem querer, seu pai e sua mãe enraizaram no fundo do seu subconsciente. Seu pai a havia ensinado a não baixar a cabeça para homem nenhum, lição esquecida durante algum tempo. Ora, que adolescente apaixonada não faz bobagens? Sua mãe a havia ensinado a enfrentar todos os seus problemas. Ora, que adolescente não coloca a culpa de todas as suas frustrações em outras pessoas para não assumir seus próprios erros? Apesar disso, agora ela não era mais uma adolescente, embora agisse como uma. Não confiava no namorado recém arranjado. Ora, o que um moreno alto e forte ia querer com ela? Se ela havia sido desprezada e machucada por homens muito abaixo do padrão dele, com ele não seria diferente. Ele faria a mesma coisa. Mas agora ela tinha a plena consciência de que aquilo era apenas uma diversão. Não se importaria mais em gostar de ninguém. Sabia que não merecia ser amada e não tentaria ser.

Doze anos se passaram desde o início desse relacionamento que ela acreditava ser um fracasso anunciado. Doze anos de cumplicidade, de amizade, de carinho, de superação. Doze anos de uma pessoa mostrando que a amava, com muita paciência e determinação. Muita determinação. Por vezes ele acreditou no relacionamento quando ela mesma não acreditava. Dentro desses doze anos ela viu que poderia ser amada e aprendeu a se amar. Viu que poderia ser respeitada e aprendeu a se respeitar. Viu que poderia ser digna e aprendeu que não pode aceitar menos do que ela realmente merece. Porque ela merece e muito. Viu que todas as vezes que havia olhado seu corpo no espelho e o odiado, foi por pura tolice. Viu que as vezes em que desejou ser doente apenas para ser magra, era uma das coisas mais equivocadas que ela já havia pensado. E ela pensou em muitas, muitas coisas equivocadas ao longo da vida. Percebeu que não pode, de forma alguma, desejar suprir as expectativas de outras pessoas.

Nessa grata jornada de se reencontrar com ela mesma, reencontrou também uma amiga, que a fez ver que o seu corpo não precisa se encaixar em nenhum tipo de padrão. Que a ajudou, muito, no seu processo de aceitação, no seu processo de se amar. O reencontro com essa amiga e as conversas com ela a fizeram ter ainda mais certeza de que ela é sim, uma mulher fantástica. Uma mulher que enfrentou problemas dos quais muitas pessoas fugiriam. Uma mulher que aprendeu, da forma dura da vida, que nem todas as coisas são como nós queremos, mas podemos sim, fazer com que mesmo as adversidades nos ensinem algo. Uma mulher que como todas as outras merece ser amada, mas, acima de tudo, merece se amar.

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01 Comentário

  1. Rosângela
    10 meses atrás

    O amor está além dos padrões e das crenças que adquirimos ao longo da nossa jornada! Linda história 💪💓

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