O não pertencimento como rito de passagem

O não pertencimento como rito de passagem

Acordei no dia 6 de janeiro com a sensação clara de não pertencimento. Não era tristeza. Era silêncio. E há silêncios que não acolhem, eles interrogam. Completei 49 anos longe de quase tudo o que, um dia, chamei de meu.

O corpo já vinha avisando há algum tempo. A menopausa não chega apenas com alterações físicas; ela desmonta personagens. Aqueles que criamos para sobreviver. Em algum momento, eles deixam de servir. Sou brasileira. E isso não é um detalhe. Sou mulher, mãe, imigrante e advogada. Durante muito tempo, essas palavras me sustentaram. Naquele dia, nenhuma delas foi suficiente para explicar o vazio que senti ao abrir os olhos.

Para seguir adiante, preciso voltar um pouco. Em março de 2020, decidi que meu então marido não me tocaria mais. O corpo decidiu antes de mim. Não houve cena, nem ruptura imediata. Houve silêncio. E uma tentativa, hoje sei, equivocada de sustentar algo que já estava morto. Fiquei. Pelas crianças. Pela família. Pela imagem. Pela vergonha do fracasso. E também por uma arrogância silenciosa: a convicção íntima de que certas coisas acontecem com outras mulheres, não comigo. Não com uma mulher no auge da carreira, segura intelectualmente, transformada fisicamente, reconhecida socialmente.

A realidade foi menos sofisticada. A traição veio. Repetida. Despersonalizada. E a última atravessou a porta da minha casa com o rosto da amizade. Veio a pandemia. Veio o confinamento. Veio o colapso do cotidiano. Em um gesto que misturava medo e coragem, propus a mudança para a Europa. Portugal parecia viável. As portas ainda estavam abertas quando quase todas se fechavam. Partimos. Ainda havia, escondida em algum canto, a fantasia de reconstrução, não exatamente do amor, mas da família como ideia. Morar em casas separadas parecia uma tentativa moderna, racional, quase um arranjo Rita Lee e Roberto de Carvalho, quem sabe.

O que eu não antecipava era o efeito colateral mais surpreendente de todos: o silêncio. Pela primeira vez, morei sozinha. Sem música. Sem televisão. Sem vozes. E aquele silêncio, que eu imaginava provisório ou incômodo, revelou-se um território. Não era ausência. Era descanso. Era espaço. Era, talvez, a primeira forma concreta de liberdade que eu experimentava em muito tempo. Durou pouco.

Quando a divisão do patrimônio entrou em cena, a ruptura ganhou contornos mais duros. O “não” que dei foi insuportável. Perdi recursos. Perdi o cotidiano com meus filhos. No Brasil, eu saberia nomear aquilo: violência psicológica, patrimonial, processual. Fora dele, aprendi que nem toda violência encontra reconhecimento. Decidi viver longe do meu algoz.

A Itália me recebeu com uma mala de mão, outra de vinte e três quilos e um corpo exausto. Morei em albergue. Dividi quartos, banheiros e silêncios com desconhecidos. Foi numa cozinha coletiva que conheci a Eugenia, uma mulher siciliana também em travessia. Não havia promessas entre nós, apenas reconhecimento. Conseguimos alugar um apartamento pequeno. Um lugar simples, mas possível. Reconstruí o mínimo. Uma casa possível. Uma rotina simples. Um novo registro profissional.

Meu pai já havia partido. Em 2024, perdi minha mãe. Com ela, perdi o eixo e o último lugar onde ainda podia descansar. E assim cheguei aos 49. Longe dos meus filhos. Longe do Brasil. Longe do calor humano que reconhece o corpo antes do nome. O afeto chega por mensagens, e sou grata. Ainda assim, sinto falta do gesto, do toque, da dança, do barulho da vida compartilhada.

Meus 50 anos serão celebrados no Brasil. Não como retorno, mas como rito. Janeiro. Carnaval. Calor. Preciso lembrar, na pele, de onde vim para seguir sem me perder.

Depois, volto.
Não para recomeçar,
mas para continuar.
Escrevo para não enlouquecer.
E não sou refem da coerência

Tatiana Soares de Azevedo

Orientadora Jurídica
OAB-SP 174797

 

Feminista de nascença, mãe, formada pela PUC/SP, advogada no Brasil, Portugal e Itália. Com mais de 25 anos dedicados ao Direito, fui docente por uma década e autora de livros. Uso o Direito como instrumento de justiça e transformação social.

Related Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *