Do lixo a Paris – uma reflexão sobre investimentos

Do lixo a Paris – uma reflexão sobre investimentos

Este artigo é um pouco diferente dos outros que já escrevi aqui para o Blog, pois não tem finanças como temática principal. Ele na verdade, é reflexo de uma angustia, um incômodo que sinto ao ver os crescentes e sedutores apelos em prol dos investimentos monetários, as famosas dicas de como enriquecer antes dos 30 anos e até listas de motivos dizendo que não vale a pena estudar.

Refletindo a respeito e procurando uma maneira de defender que o investimento em educação representa um ótimo negócio, resolvi me utilizar da intensidade das palavras e o poder da escrita, pois acredito que as histórias que moram dentro de nós podem impactar a vida de outras pessoas. Assim, decidi me expor e compartilhar com os leitores a minha história de vida e também o início da minha relação com a economia e as finanças.

Minha intenção é expressar a essência do que sou, escrever com a alma e demonstrar como minha vida foi impactada e transformada por meio do investimento em educação. Contudo, não acredito em verdades absolutas, este é apenas um relato. Felizmente, existem milhares de bons exemplos por aí (que bom!). O importante é valorizar sua trajetória, sua história e ir em busca de conquistar seus objetivos.

Eu sou a mais nova de três filhas. Fui criada por três mulheres. Minha mãe teve a coragem e a ousadia de se divorciar em 1979 (a lei do divórcio é de 1977) e assim ela criou sozinha suas três filhas com muita garra, luta, valores e amor, o que ironicamente ela pouco recebeu (é filha de mãe solteira e aos sete anos se tornou órfã, sendo criada por um padrasto e uma madrasta).

Passei minha infância inteirinha sendo chamada de “filha da empregada” e parte da adolescência sendo chamada de “filha da lixeira”, uma vez que minha mãe era gari. Até os 10 anos de idade vivi sem ter acesso a energia elétrica, água encanada ou banheiro. Conheci o rádio FM os 12 anos e aos 15 anos escolhi ganhar de presente uma TV que foi a primeira TV em cores que minha família teve.

Apesar desta realidade, desde muito pequena meu sonho era estudar. Não sabia o motivo, tão pouco onde exatamente isso iria me levar. Além disso, o fato de ser tímida, ter pouquíssimos amigos e ser discriminada, fazia com que a atração pelos cadernos só aumentasse.  Então, quando ganhei uma bolsa de estudos em uma das melhores escolas da cidade, a paixão se transformou de vez em amor!

A cada livro que eu lia, era como se uma luz se acendesse em minha mente.

Na escola particular sofri preconceito racial e social nível “hard”. Todas as manhãs, para chegar na sala de aula enfrentava um grupinho de guris reproduzindo sons de macaco enquanto eu passava por eles. Entretanto, os poucos amigos que conquistei conservo até os dias de hoje: Gustavo, Cristiane, Áurea, Irani (a única que perdi contato), Viviane e Márcia.

Naquela época, tempo era um dos poucos recursos abundantes em minha vida. Era o que eu tinha de sobra. Estudava pela manhã e à tarde tinha que voltar à escola para as aulas de educação física. Logicamente, eu não tinha dinheiro para ir em casa e voltar e, mesmo se tivesse, a escola ficava no centro e eu morava no bairro mais afastado da cidade. Então, foi assim que eu comecei a frequentar a biblioteca. Nos dias da educação física, eu saia da aula e ia para o trabalho de minha mãe. Lá dividia com ela a marmita e depois partia rumo à biblioteca, permanecendo por lá até a hora da educação física.

Certa vez, conversando com uma colega a respeito das profissões dos pais (assunto do qual eu não gostava), ela disse que sua mãe era psicóloga. Perguntei o que fazia uma psicóloga e ela me explicou que este era um tipo de médico que cuidava da mente. Aquilo muito me interessou!

Em uma de minhas tardes na biblioteca, me deparei com livros de psicologia (hoje em dia chamados de autoajuda). O primeiro livro do gênero que li foi o “Poder do Subconsciente” de Joseph Murphy. Este livro mudou minha vida, meu mundo! Li todos os livros deste autor que haviam na biblioteca e muitos outros do gênero. Adotei Joseph Murphy como meu psicólogo (o chamo assim até hoje).

A cada livro que eu lia, era como se uma luz se acendesse em minha mente. Aos poucos fui colocando em prática os aprendizados e assim, me transformei. De insegura e medrosa, a autoconfiante e corajosa. Passei a me aceitar e aos 15 anos me tornei PROTAGONISTA de minha vida. Quando passava pelo grupo de guris reproduzindo sons de macaco, cumprimentava e dizia: Legal, o homem evoluiu do macaco! Quando me chamam de negra, dizia: Obrigada, eu sei! E tu é branco, né?! Não é preciso me lembrar que eu sou negra!

Há quem diga que livros de autoajuda não ajudam ninguém, outros ainda dizem que estes livros só ajudam a editora e o autor a enriquecerem. Eu respeito todas opiniões. Aliás, respeito é um dos valores inegociáveis para mim. Aprendi em casa e também com meu “psicólogo” Joseph Murphy que é saudável a discordância e que ninguém precisa concordar com ninguém. Basta respeito.

A verdade é que qualquer coisa ajuda quem quer ser ajudado e eu realmente estava disposta a me ajudar e mudar minha vida. Foi assim que deixei de ter vergonha de ser quem eu era, de onde vinha, de minha história, do bairro, da casa em que morava e passei a agradecer e ter orgulho de minha família, de minha mãe, de minha trajetória, de minha história e de mim mesma.

Mesmo ainda tímida, a curiosidade vencia a timidez e eu sempre fazia muitas perguntas às pessoas. Meus programadas preferidos eram os noticiários e nos anos 80 e início dos anos 90 as principais notícias eram os problemas socioeconômicos do Brasil. A dívida externa e a inflação que chegou a bater 80% ao mês eram os assuntos campeões. De lá eu saia perguntando:  O que é dívida externa, o que é inflação? Balança comercial? Oferta, demanda, bolsa de valores, câmbio?

É claro que em minha família ou entre os amigos ninguém conseguia me dar estas respostas e na escola a gurizada não estava ligada nisto. Então, só fui encontrar as respostas que eu tanto ansiava anos mais tarde, quando cursando Técnico em Contabilidade me deparei com a disciplina de Economia. E aí, foi amor à primeira vista! Meu MUNDO mudou pela segunda vez e na hora entendi que Economista seria a minha profissão.

Quando entrei na faculdade, muitos riram de mim. Fui motivo de muitas piadas e ouvia muitas vezes e de muitas pessoas que aquilo não era para mim. Inclusive, troquei de universidade após o pró-reitor, em sua demonstração de preocupação comigo, dizer: – Minha filha, olha que lindo este campus! As pessoas que estão aqui, são pessoas que podem estar aqui. Tu não podes querer algo além de tuas condições. Isto não é para ti, minha filha!

Sai de lá arrasada e no semestre seguinte fui para uma faculdade menor, onde me sentia gente e não apenas um número. Contudo, a dificuldade financeira permanecia e eu comemorava quando conseguia terminar um semestre e me matricular no seguinte, pois era comum trancar por não ter grana. Muitas vezes fazia 1 ou 2 disciplinas. Reprovar não era uma opção para mim, então nunca reprovei. Foram 10 anos na faculdade, mas como tudo na vida passa e no final tudo dá certo, finalmente em 2003 realizei o sonho da minha vida (até aquele momento): Ser ECONOMISTA!

Depois de graduada, o tempo voou e eu vivi 50 anos em 5 anos tamanho foi o progresso de minha vida. Decidi estudar idiomas. Inglês e espanhol. Já menos tímida, ganhei um módulo do curso de espanhol cantando “Usted se me llevó la vida” (sucesso do Alexandre Pires) no concurso de karaokê da escola. O dinheiro que seria para pagar o módulo, eu poupei e fui fazer um intercâmbio em Buenos Aires.

Ainda naquele ano, comprei meu primeiro apartamento ou melhor “apertamento” um JK no bairro mais afastado da cidade e também meu primeiro carro. Além disto, recebi uma proposta de emprego que me pagaria o dobro de meu salário atual. Era meu investimento já dando retorno

Mantive o investimento em minha formação e como já sobrava uma grana, passei a investir monetariamente com o objetivo de realizar outro sonho que surgiu após a graduação: Morar no centro da cidade, próximo à escola onde fui bolsista.

Dirlene na Torre Eiffel
Dirlene no Louvre

Quando comprei o apartamento, dando mais da metade de entrada e financiando o restante em 15 anos (o qual paguei em 5 anos) eu já possuía dois MBA’s. Obviamente, queria estudar mais, mas estudar o que? Achava que fazer outro MBA não faria diferença no meu currículo. Me informei e o Mestrado me pareceu uma boa opção. Me inscrevi, fiz a seleção, pré-projeto, entrevista e em abril de 2011 lá estava eu na primeira turma do primeiro programa de Mestrado Profissional com dupla titulação do Brasil. E de novo em um ambiente que parecia não ser para mim. No estacionamento da universidade só carrões ao lado do meu “corsinha” duas portas, ano 1999.

No mestrado tínhamos aulas com professores brasileiros e franceses aqui no Brasil e fazia parte do programa a ida dos estudantes para a França. Assim, fiz minha primeira viagem para a Europa. Fui para a cidade de Poitiers que fica a mais de 340 km de Paris e é conhecida por ter sediado o julgamento de Joana D’Arc. Estudava de manhã a noite na Université de Poitiers que foi fundada no ano 1431, ou seja, é mais antiga que nosso país.

Eu nunca havia sonhado ir a Paris, mas estando na França é quase impossível não ter vontade de conhecer a cidade mais famosa e visitada do mundo. Logo, em um final de semana peguei o trem e fui a Paris. Quando desembarquei na estação “Montparnasse” e avistei a Torre Eiffel me dei conta do que exatamente significava eu estar ali:  A “filha da lixeira” estava em Paris!

Um filme passou diante dos olhos! Revivi minha trajetória, minha história e sem ter ninguém para conversar, chorei e agradeci a Deus, ao universo, a meus antepassados, à minha mãe, às minhas irmãs, aos meus amigos, aos professores que sempre me incentivaram e à todas as pessoas que me impactaram e impulsionaram de alguma forma.

Dentre tantas coisas, naquele momento lembrei inclusive dos guris reproduzindo sons de macaco na entrada da escola. Recordei da música do Cidade Negra que usei de entrada para a cerimônia de formatura: “Você não sabe o quanto eu caminhei para chegar até aqui”, da epígrafe de meu TCC “Devemos a grandeza de nossas vidas, aos problemas e obstáculos que tivemos que vencer” e ainda, a partir daquele momento, adaptei para minha vida uma frase do inesquecível e clássico filme Titanic: “Os livros me salvaram de todas as maneiras que alguém pode ser salvo”.

Até o próximo artigo…

UBUNTU!

Dirlene Silva

Dirlene Silva

Economista, Mestre em Gestão e Negócios, Consultora de Inteligência Financeira, Coach e Mentora
https://www.linkedin.com/in/dirlenesilva/

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18 Comentários

  1. Debora Barros
    6 meses atrás

    Gratidão por compartilhar essa história Dirlene, me tocou e fez eu refletir muito!
    Você é inspiração para muitas mulheres!

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Deeh, querida! Obrigada por me incentivar a escrever minha história. Escrevendo-a percebi o quanto sou iluminada, pois desde sempre ao longo de minha caminhada encontrei as pessoas certas, nas horas certas. Gratidão por estarmos juntas aqui no Prateleira. ⚘

  2. Alice
    6 meses atrás

    Parabéns pela sua trajetória e conquistas, Dirlene! Tem outro sabor quando precisamos superar adversidades para chegar até nossos objetivos. Grande inspiração a sua história! Que aliás ainda continua sendo escrita e é um grande prazer poder acompanhar estes novos capítulos.

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Verdade, Alice! As vitórias são mais doces quando superamos a nós mesmas! Gratidão pelas palavras de carinho e incentivo.

  3. Aurea goncalves
    6 meses atrás

    Meu Deus…lindo…chorei…lembrando nosso tempo de estudante….o que a vida nos apresenta…estamos distantes mas nunca esqueci de vc, minha amiga Dirlene…

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Querida Áurea! Tu fazes parte de minha história e tua amizade foi muito importante para mim!! GRATIDÃO!

  4. Jessyca
    6 meses atrás

    Uma grande inspiração e uma profissional de grande qualidade, você é ótima!

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Obrigada pelo carinho, Jessyca! A escrita é mesmo terapeuta. Só sinto GRATIDÃO!

  5. Darlene Lopez
    6 meses atrás

    Di do céu, mesmo conhecendo tua história ao ler me emocionei, sabes que sempre te admirei muito e a cada vez admiro mais. E que privilégio ter te tido em minha vida. Muito sucesso e conquistas pra ti, merece demais.

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Obrigada, minha querida! A vida nos traz dificuldades e também escolhas. Escolhi utilizar as dificuldades a meu favor. Sou grata ao passado que me trouxe até aqui. Beijos

  6. Andréa
    6 meses atrás

    Parabéns por sua trajetória. Belíssima história.

    • Dirlene Silva
      6 meses atrás

      Obrigada, Andréa! É primeira vez que escrevo minha história e espero demonstrar as pessoas que tudo é possível quando temos força de vontade.

  7. Fernando Goes
    6 meses atrás

    Que historia hein!!! Maravilhoso o texto e inspirador, Dirlene!

    Feliz pela mulher que a tua historia te fez, seguindo em frente, não importa o que aconteça.

    E ainda pode perguntar sem pena: Tu já foi para paris? hahaha

    Que chique ela!

  8. Cristina F B Uhrig
    6 meses atrás

    Parabéns, linda… Orgulho de ter estudado contigo. Deve ter muito orgulho da tua trajetória, mulher de fibra, coragem e determinação.

  9. ALESANDRA DUARTE MATTOS
    6 meses atrás

    Parabéns!!!!Linda!!!!Guerreira!!!!Que orgulho em saber a sua história, me emocionei muito é difícil acreditar que existe ainda esse preconceito…vc uma mulher de fibra, determinada, corajosa…cada vez mais sua fã…Você não sabe o quanto caminhei para chegar até aqui….AGORA SEI POUCO DA SUA TRAJETÓRIA…..PARABÉNS!!!!AMIGA!!!!!

  10. Ana suelen
    6 meses atrás

    Que história linda, estou emocionada.
    Obrigada por compartilhar. Que trajetória distinta.

  11. Theo Linero
    6 meses atrás

    Que história linda, Dirlene! Parabéns! Tenho certeza que você é inspiração para muitas pessoas!

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